terça-feira, 19 de setembro de 2017

"Vivendo do lado de fora da vida."

"Vivendo do lado de fora da vida.".






“Preciso me desacostumar a viver fora da vida”.

Acabei de dizer isto a uma amiga.

Ela, retornando do surf - manhã cedo, quatro ondas e a voz gravada num aplicativo - tinha tanta endorfina e serotonina que doeu.

Doeu porque vi o que deixei pra trás quando “cresci”: larguei meu surf, meu vôlei e minha forma de olhar a vida de maneira simples - sem agonia 

Doeu porque sempre dói ter que reconhecer que, após tantos anos, percebo que não deu certo simplesmente esquecer o que me faz bem, e viver do lado de fora da vida - sim, o capitalismo nos faz viver do lado de fora

Como já anunciado por Guy Debord - vivemos para um “espetáculo do ter” - somos só figurantes de uma grande cena.

Eu não sei se a dor de hoje me fará sair de casa de forma diferente:

Estou fazendo provas, preparando aulas, estudando questões de concurso para ensinar Direito aos meus alunos que mal querem aprender algo que os mude - querem mesmo - e tenho que dar a eles isto (mas jamais apenas isto) - algo que lhes coloque no espetáculo, a chamada “estabilidade” para o ter. Vai ver que, no final de tudo, o que querem mesmo é viver esta grande cena: viver do lado de fora da vida.

E não estou falando que devemos viver de forma hippie (leia esta palavra de forma simples — sem criticar a cultura hippie em sua essência - é apenas um uso banal; do termo) abandonar cuidado com os nossos e não planejarmos algo além.

O que estou dizendo é que, na roda viva da vida, quando o carrossel está lá em baixo, a gente vê os problemas maiores do que são, a gente perde o passo e não consegue perceber como antes - tudo fica distorcido. 

O pequeno é grande, o grande , pequeno. 

Lá em cima, dependurada no dedo do gigante – na roda gigante do status que o capitalismo produz pude ouvir a A voz de minha “amiga pós-surf”. 

Vê-la dizer que vai voltar a ser “quem ela é” me trouxe um sentimento bucólico de quando eu conseguia viver com menos e meu carrossel, ainda que para todos estivesse lá em baixo, dentro de mim ficava lá em cima - 
sou eu o via, e isto era suficiente.

Hoje somos cada vez menos nossos e nos habituamos a habitar do lado de fora... 

Termino este desabafo com o conselho de Debord.
 “A crítica que vai além do espetáculo deve saber esperar.”.(DEBORD, p. 118)

A alma já gritou pro dono da Roda Gigante e pediu pra descer...

Mas ele mandou eu esperar a minha vez






Evoé. 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O DERRISÓRIO SILÊNCIO DO MUNDO.


Foi ontem. 

Aqui no Brasil, 

calaram o umbigo que liga o mundo: 

o Whatsapp. 

Silenciou.
...
..

Queria olhar no olho do mundo e pedir para voltar atrás

Sim

Desejei o mais tolo sentido:

E o mundo, derrisório, silenciou meu pedido….

Pensei em voltar ao tempo em que as cartas, os telefones, os afetos, eram construídos de maneira mais custosa - e não no sentido capital - mas quanto ao tempo e envolvimento pessoal para construções afetivas

Meu esforço de tentar compreender o mundo e alinhá-lo a algo que me cause esperança é meu fio de prata com a ideia de viver pela poesia dos dias

Retribuí aquele sorriso irônico com a máxima de MORIN:

"Sem esperança você não encontrará o inesperado.". (2010, p.32). 
  
Eu ando pelo mundo semeando uma esperança que nem sei mais se sobrevive em mim

Como professora de filosofia do Direito, proporei a ideia de BAUMAN – a:
"Praxeomorfia"

Não se assuste com o tamanho da palavra.

Não é palavrório para impressionar, mas uma prática de redesenhar a própria existência.
Veja este exemplo:






Assim como esta estação, que foi reeditada com a intervenção da arte,
Acho que podemos redesenahar nossa existência e dias…
Mas isto nos custará uma dose de esperança que , para muitos, soará quase infantil, insegura, incerta...

Mas acredito na vida como uma "obra de arte" pintada mais com as cores das incertezas que das certezas:

"Nossa vida, quer saibamos ou não, quer apreciemos o fato ou o lamentemos, é obra de arte. Para viver nossa vida como exige a arte de viver, temos - assim como artistas - de nos impor desafios difíceis de confrontar de perto, objetivos bem além de nosso alcance, padrões de excelência que pareçam distantes de nossa capacidade para alcançá-los. precisamos tentar o impossível. SÓ PODEMOS ESPERAR, SEM O BENEFÍCIO DE PROGNÓSTICOS CONFIÁVEIS (O QUE DIRÁ DE CERTEZAS), que, com esforços longos, árduos e muitas vezes exaustivos, ainda conseguiremos satisfazer padrões e alcançar objetivos, e, assim, aceitar o desafio. INCERTEZA É O HABITAT DA VIDA HUMANA."(BAUMAN, 2011, p.24).
  
O silêncio do mundo - aqui representado pela decisão judicial que determinou, liminarmente, a suspensão por 24 horas dos serviços do Whatsapp -  é o início da recuparação da nossa fala – (Ver mias: http://www.conjur.com.br/2015-dez-17/oi-entra-habeas-corpus-suspender-bloqueio-whatsapp).

Outra linguagem?
Sim.
e não sabemos como aprender sua grafia e gramática

Não sabemos ler o mundo.

“Queixamo-nos de que as pessoas não leem livros. Mas o déficit de leitura é muito mais geral. Não sabemos ler o mundo, não lemos o outro.”.(COUTO, 2012, p.103).

Quando o mundo silenciou as pessoas sofreram: a solidão maquiada com as frágeis conexões alardearam o medo

Medo de estarem só

E eu pensando sempre no todo - ou no outro - , mas, e eu…?
"O homo homini lups - o homem é o lobo do próprio homem. É uma das máximas mais firmes da moralidade eterna. Em cada um de nossos próximos tememos um lobo. Somos tão pobres, tão fracos, tão facilmente arruinados e destruídos! Como podemos evitar o medo?…Enxergamos perigo, apenas perigo…". (Leon Shestov).

Quando o mundo me respondeu derrisório  - O que eu consegui ler?

O que você conseguiu ler do dia sem whatsapp?
O que consegue ler deste texto?


Cada vez menos sabemos ler o mundo
Não sabemos ler o outro

Os instrumentos  - os nossos novos dialetos - são cada vez mais de distanciamento

Não aprendemos a ler – o mundo

E quem nos salvará deste analfabetismo de alma?

  



sábado, 21 de novembro de 2015

Das missangas sem um fio

"A missanga, todos veem. 
Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as missangas.
Também é assim a voz do poeta:
Um fio de silêncio costurando o tempo."(Couto, 2012, p.12). 



















"Das missangas sem um fio"












Vou lançar minha fala ao mundo


Vou correr descalça na chuva
Vou gritar na madrugada silenciosa
Vou procurar quando todos já tiverem encontrado
Vou guardar o que todos já tiverem perdido
Vou subir quando a montanha tiver encerrado
Vou viver sem um fio - e não pretendo enfeitar vida em missangas 
Vou trancar os degraus da escada


Eu vou 
por um descaminho impossível

Eu vou 
costurando o tempo com um sorriso invisível.... 

Eu vou correr o risco de escrever com um fio e formar um composto confuso de missangas
As palavras são este fio invisível querendo compor com as cores que o mundo expõe
Talvez seja isso uma das formas de liberdade

"Escrever é sempre correr o risco de devolver ao desejo sua liberdade....p.47
As palavras são sempre péssimas tradutoras dos sentimentos....p.111
Para sentir é necessário esvaziar o corpo de pensamentos. p.112

".(warat, 2000).

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

O ser Professor e os olhos no Mundo que v(irá)...


Os encontros designados Biologia na noite sugerem a possibilidade de recriar uma fogueira imaginária em redor da qual podemos fazer aquilo que creio ser tão necessário nos nossos dias. E que é reencantar o mundo. Uma constrangedora aridez foi-se instalando como nossa condição comum. A culpa não é evidentemente nossa. Mas nós herdamos uma ideia de ciência que vive de costas para a necessidade de trazer leveza e construir beleza. (MIA Couto. P.49 e se Obama fosse africano? Ensaios).



Quero trazer aqui um ensaio sobre a importância do mestre por meio de um ensino poético -  inspirador. Quero resgatar o mais antigo discurso: a iluminação que nos move a seguirmos alguém.

Quero propor um ensino que angarie alunos pela alma.

Quero esquecer um pouco toda estilística acadêmica, quero sentar ao lado de Warat e reaprender a falar e a ouvir – desconstruir a robustez mirrante dos “juristas”.

Quero me importar menos com o ritmo frenético dos cursos de Direito – quero descansar o começo e o fim da aula com algo que os alunos levem para dentro de si.

Quero que os alunos vejam o mundo. Para começar, vejam o professor. Este ser invisível para alguns, este redator das notícias e conhecimentos, serviçal apenas, tem alma profunda e afunda quando não visto

Este breve ensaio fala do quanto nos perdemos – e falo, intensamente, do curso de Direito, mas sei que há problemas por todos os lados – como não sou um mundo todo – trato do que abarco.

Quero encontrar colegas de profissão e ver nos olhos deles novo ânimo. 

Quero alunos menos beligerantes, mais amáveis, menos amargos, menos orgulhosos, menos soberbos, principalmente, os ditos “concurseiros” – toda esta armadura seja deixada de lado – ao entrar em sala – quero que eles abram a janela da alma e me olhem nos olhos...

Talvez este ensaio seja movido pelo dia de hoje: 15 de outubro, mais um dia do professor que vivo, 

Talvez este ensaio seja uma “poética do devaneio”(BACHELARD) – 

Convido a todos achando que o mundo inteiro não me lerá, mas, se você me leu até o momento, o mundo inteiro não importa. 

Importa, de verdade,
o mundo que virá.