sábado, 21 de novembro de 2015

Das missangas sem um fio

"A missanga, todos veem. 
Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as missangas.
Também é assim a voz do poeta:
Um fio de silêncio costurando o tempo."(Couto, 2012, p.12). 



















"Das missangas sem um fio"












Vou lançar minha fala ao mundo


Vou correr descalça na chuva
Vou gritar na madrugada silenciosa
Vou procurar quando todos já tiverem encontrado
Vou guardar o que todos já tiverem perdido
Vou subir quando a montanha tiver encerrado
Vou viver sem um fio - e não pretendo enfeitar vida em missangas 
Vou trancar os degraus da escada


Eu vou 
por um descaminho impossível

Eu vou 
costurando o tempo com um sorriso invisível.... 

Eu vou correr o risco de escrever com um fio e formar um composto confuso de missangas
As palavras são este fio invisível querendo compor com as cores que o mundo expõe
Talvez seja isso uma das formas de liberdade

"Escrever é sempre correr o risco de devolver ao desejo sua liberdade....p.47
As palavras são sempre péssimas tradutoras dos sentimentos....p.111
Para sentir é necessário esvaziar o corpo de pensamentos. p.112

".(warat, 2000).

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

O ser Professor e os olhos no Mundo que v(irá)...


Os encontros designados Biologia na noite sugerem a possibilidade de recriar uma fogueira imaginária em redor da qual podemos fazer aquilo que creio ser tão necessário nos nossos dias. E que é reencantar o mundo. Uma constrangedora aridez foi-se instalando como nossa condição comum. A culpa não é evidentemente nossa. Mas nós herdamos uma ideia de ciência que vive de costas para a necessidade de trazer leveza e construir beleza. (MIA Couto. P.49 e se Obama fosse africano? Ensaios).



Quero trazer aqui um ensaio sobre a importância do mestre por meio de um ensino poético -  inspirador. Quero resgatar o mais antigo discurso: a iluminação que nos move a seguirmos alguém.

Quero propor um ensino que angarie alunos pela alma.

Quero esquecer um pouco toda estilística acadêmica, quero sentar ao lado de Warat e reaprender a falar e a ouvir – desconstruir a robustez mirrante dos “juristas”.

Quero me importar menos com o ritmo frenético dos cursos de Direito – quero descansar o começo e o fim da aula com algo que os alunos levem para dentro de si.

Quero que os alunos vejam o mundo. Para começar, vejam o professor. Este ser invisível para alguns, este redator das notícias e conhecimentos, serviçal apenas, tem alma profunda e afunda quando não visto

Este breve ensaio fala do quanto nos perdemos – e falo, intensamente, do curso de Direito, mas sei que há problemas por todos os lados – como não sou um mundo todo – trato do que abarco.

Quero encontrar colegas de profissão e ver nos olhos deles novo ânimo. 

Quero alunos menos beligerantes, mais amáveis, menos amargos, menos orgulhosos, menos soberbos, principalmente, os ditos “concurseiros” – toda esta armadura seja deixada de lado – ao entrar em sala – quero que eles abram a janela da alma e me olhem nos olhos...

Talvez este ensaio seja movido pelo dia de hoje: 15 de outubro, mais um dia do professor que vivo, 

Talvez este ensaio seja uma “poética do devaneio”(BACHELARD) – 

Convido a todos achando que o mundo inteiro não me lerá, mas, se você me leu até o momento, o mundo inteiro não importa. 

Importa, de verdade,
o mundo que virá.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

A Mamushka canotilhiana...



Mamushka canotilhiana...





Uma comunidade que tem a mulher como símbolo de força e poderio é, necessariamente, uma comunidade distinta da maioria...Um Viva à Rússia então!

: "A boneca russa Matryoshka (Matrioshka), (também conhecida como Mamushka) ou “boneca russa” na verdade é um conjunto de bonecas ocas de tamanhos decrescentes colocadas uma dentro de outra. O nome “Matryoshka" é proveniente do nome real feminino russo “Matryona", que era um nome muito popular entre camponeses na Rússia antiga. Dizem também, que o nome “Matryona" possui a raiz latina, "mater", que significa “Mãe”. Portanto, para muita gente esta boneca simboliza maternidade e fertilidade. 

Normalmente as Matryoshkas são figuras de madeira que podem ser desmontadas para tirar uma menor de dentro dela, que também contém outra menor, e assim por diante. O número de figuras pode variar de três a dezenas, mas os conjuntos de cinco ou de sete são os mais comuns. "(Disponível em:<http://aprender-russo-online.blogspot.com.br/2009/02/historiaorigemmatrioshkamamushka.html>.). 

Aqui, a Babuscha Canotiliana não chega a tanto.

Utilizo esta imagem para trilhar o já mal humorado debate entre REGRAS E PRINCÍPIOS no Direito Brasileiro.

Claro, sem deixar de mencionar a obra: "ENTRE HIDRA E HÉRCULES: PRINCÍPIOS E REGRAS CONSTITUCIONAIS"MARCELO NEVES

Sou professora de Hermenêutica Jurídica há alguns anos, é interessante perceber como os alunos querem tudo dissecado - um "self" de uma sociedade rápida e superficinal...

óbvio, não todos - graças a Deus e à beleza da vida!

Enfim, num resumo que diferencie REGRAS DE PRINCÍPIOS, preciso apontar, inicialmente, que são DIFERENTES, quando eles se apoderam disto - os injeto com as temáticas que apontam o EXATO OPOSTO...

Meu objetivo: PENSEM, ALUNOS! Pensem!!!


Eles chegam a sorrir...

É muito interessante a experiência 
Voltando ao tema...


Canotilho tenta elencar OS PRINCÍPIOS como mais ou menos generalizantes,; abstratos; colidem aparentemente, não entram em antinomias reais; são "mandados de otimização"(R. ALEXY)... até chegar ao ponto fulcral, que ALEXY também coaduna:

Princípios, quando aplicados, perdem todas aquelas tradicionais características e tornam-se em regras especificadas, bem delimitadas pelas cores do caso concreto....

Por isso o meu gráfico
Mamushka!
Das Bonequinhas grandes às pequenas – todas encerram a mesma imagem: regras e princípios, como teorizado pela doutrina é um grande erro de SIMPLIFICAÇÃO DO DISCURSO!

Marcelo Neves aponta isto com grande espanto: as regras se tornaram, no BRASIL, HIDRAS, inimigas do Direito. E os princípios se tornaram a grande salvação - ele então, de teima, inverte o discurso: "Em nossa formulação, ao contrário, os princípios tem o caráter de Hidra, enquanto as regras são hercúleas.".(2014, P.XVII). 


Pronto, nem doeu ler um pouco sobre Canotilho, Müller, Alexy, Neves e a aplicabilidade dos princípios constitucionais, se antes não conseguia, faltava apenas esforço...que fique então a imagem e com elas seus signos...

Veja agora a Mamushka e lembre: à mulher se deve o respeito e reverência do seu ser singular

Olhe então para ela e lembre: AS REGRAS e os PRINCÍPIOS - todos cabem dentro de um mesmo discurso - no caso concreto - na partilha - se avizinham ...


Agora, se você me diz:
Professora, nem tenho Mamushka
Aluno, crie!
Aluno, pense!
Aluno...

Ser profesor é conversar com alunos imaginários...
Eu atravesso salas de aula por onde ando.


hasta!
Ileide Sampaio.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Dos três tipos de coração: orgânico, mineral e o vegetal...



Baseada na afirmação de Eco:
Temos três tipos de memória.
O primeiro é orgânico, que é a memória feita de carne e de sangue e administrada pelo nosso cérebro.
O segundo é mineral, e, nesse sentido, a humanidade conheceu dois tipos de memória mineral: milênios atrás, foi essa a memória representada por tijolos de argila e por obeliscos, muito conhecidos neste país, nos quais as pessoas entalhavam seus textos. Porém esse segundo tipo é também a memória eletrônica dos computadores de hoje, que tem por base o silício.
Conhecemos também outro tipo de memória, a memória vegetal, representada pelos primeiros papiros, de novo muito conhecidos neste país, e posteriormente pelos livros, feitos de papel.”(Umberto Eco, 2003).


Afirmo agora:

Temos três tipos de coração:
Um feito de sangue, mais que “orgânico”;
Outro mineral, mais que “de pedra”;
E outro de papel, vegetal, esse é o que resta de nós na descrição alheia – seja ela “eletrônica” ou interpessoal.

A ideia de classificar as coisas, pô-las numa ordem, é tentadora.
Agora mesmo vejo, no texto, como ela abre leques de discussões mais centrados.
Filtrei da alma um coração que só tem três lados: orgânico; mineral; e, o último, vegetal - empapelado.

Esta classificação surgiu das “machucadelas” ocasionadas pela leitura que fiz do brilhante André Comte-Sponville em sua obra: “Bom dia, Angústia!”. Quem mais leria esta obra só pela provocação do título?! (eu!)

Leio uma gota do texto e me vejo bordando metafísica num coração de carne – que aqui chamei de “orgânico”:

“Não há vida sem risco.
Não há vida sem sofrimento.
Não há vida sem morte.
A angústia marca a nossa impotência, é nisso que é verdadeira também, e definitivamente. [....]
Tudo nos ameaça; tudo nos machuca; tudo nos mata.[....]
Somos fracos no mundo, e mortais na vida. [....].”. (COMTE-SPONVILLE, p.12).

Um corpo prometido à dor, ao envelhecimento, e, paradoxalmente, ao amor e ao deslumbramento: é o ser – humano
Um coração orgânico que, às vezes, cai ladeira abaixo como se todo chão fosse um sentimento
Quando a vida orgânica falta – escassa – ele ousa dizer que há mais ali
Ali onde nada há – há o que o orgânico diz não existir

Coração orgânico é angústia de preenchimento
Cada batida
Um
Pedido

...
“Precisamos de tão pouco para viver: como é possível que precisemos de tanto, ao que nos parece, para viver bem?”(COMTE-SPONVILLEp.23).
...

Há quem ache que coração orgânico bebe só do que é real – no sentido palpável, racionalista : eu não!
Há dias que até Deus parece morder uma ponta do meu coração orgânico
Eu compartilho consanguinidades como as de Adelia Prado:

“CONSANGUÍNEOS
Não há culpados para a dor que sinto.
É Ele, Deus, quem me dói pedindo amor
Como se fora eu sua mãe e O rejeitasse.
Se me ajudar um remédio respirar melhor,
Obteremos clemência, Ele e eu.
Jungidos como estamos em formidável parelha,
Enquanto Ele não dorme eu não descanso.”(PRADO, 2012, p.99)

O coração orgânico é um "Alogos", como afirmava Epicuro:
Algo que não há pergunta, discurso, nem resposta – e nem dependência deles: o coração (a vida) orgânico bate sem saber porquê.

O segundo tipo de coração é o mineral
Onde residem os traços e lembranças dos tempos
O que há nas paredes de anos atrás nos faz até pensar que valeria uma máquina de voltar no tempo
Mas o tempo não concede ensaio, nem pausa – mas chances
O coração mineral nos quer dizer que até pensamos que somos de pedra
Que podemos seguir passo adiante
Mas as linhas do tempo rasgam não só nossa pele, mas nossa alma
O coração mineral nos desafia a ressignificar a vida: a amá-la – definitivamente.
E amar a vida não tem nada a ver com um sentimento febril pela Felicidade e satisfação plenas:

“Viver é uma tragédia, viver é uma comédia, e é a mesma peça, e ela é bela e boa, em todo caso pode sê-lo, se sabemos vive-la, se sabemos amá-la como ela é, e, aliás, não temos escolha. CUMPRE AMAR A VIDA.[....]
Aquele que só amasse a felicidade não amaria a vida, e com isso se proibiria de ser feliz.
O erro é querer selecionar, como nas prateleiras do real.
A VIDA NÃO É UM SUPERMERCADO, CUJOS CLIENTES SERIAMOS NÓS.”. (COMTE-SPONVILLE, p.56).

Amar o mineral (a vida mineral) - independentemente da lembrança que recair, simplesmente: amá-lo.

O terceiro tipo de coração é o vegetal - empapelado
Este que agora mesmo você começa a embrulhar quem sou ao ler meu texto
Eu nem quero imaginar o que alguém, ao terminar de ler meus frágeis textos, imagina
Mesmo assim – em meu coração empapelado – há um sentimento, quase necessidade, de querer agradar o próximo
O coração empapelado é o que menos importa, mas importa
Ele nos serve como medição de nossa autorreflexão
Precisamos fazer a pergunta de Cristo:
“Chegando Jesus à região de Cesaréia de Filipe, perguntou aos seus discípulos: Quem os homens dizem que o Filho do homem é? ‘
Eles responderam: ‘Alguns dizem que é João Batista; outros, Elias; e, ainda outros, Jeremias ou um dos profetas’.
‘E vocês? ‘, perguntou ele. ‘Quem vocês dizem que eu sou? ‘.(Mateus 16:13-15).

Quem vocês dizem que eu sou?
Pergunta que não é feita por qualquer um e nem para qualquer tipo de pessoa...

Quais críticas nos embrulham?
Isso nos valerá parte de nossa vida – coração vegetal – empapelado

Encerro aqui os três tipos de coração
Minha metáfora do mundo – como sempre - incompleta:

“Uma comparação
Cujo primeiro termo se perdeu.”( Roberto Juarroz, 2010, p.285).