quarta-feira, 26 de março de 2014

Uma Crônica da Vida: uma verdade de uma mentira.

Há relatos de história que, até hoje, me descabelam a razão.
Diria que, neste 2014, é lembrada a Ditadura Militar.
Diria, ainda, que, nossa democracia de periferia de mundo, ainda nem se deu conta do que seriam: direitos humanos, função social da propriedade, dignidade da pessoa humana, eficácia dos serviços públicos, moralidade na administração pública...
Pois é, enquanto nada disto existe, leio livros com temas de Direitos que parecem absolutamente factíveis: Direitos Humanos e Fundamentais; Não retroatividade dos Direitos Sociais; Aplicabilidade Imediata dos Tratados Internacionais de Direitos Humanos; ...
Leio temas de monografias, dissertações e teses; leio acórdãos dos tribunais superiores e – nesse ínterim – leio algumas notícias de jornais...
Fico à margem
Parece que alguém está contando crônica, outros poesias, outros prosas – mas todos, de variadas formas, apenas tentam fazer crônicas da Vida
Aqui em minha Terra do Sol escaldante, leio tantos mandos e desmandos, terra de ninguém, ou de um dono patriarcal só
Aqui leio a crônica dos governantes: gritando verdades para suportar mentiras

E eu, o que agora faço?!
Traço uma linha
Se fosse lápis – quebraria a ponta

Refaria a grafia
Peneiraria com verdades das esquinas, ruas abandonadas, praças que não são mais praças, creches que faltam a integralidade, hospitais que capengam e gemem nos corredores – como se deus tivesse virado as costas, como se o mundo fosse apenas a aparelhagem, a pompa: olha que prédio lindo! Carros lindos! Nada lá dentro está reorganizado - nenhuma reestruturação séria - mas na pompa estamos...

T(anta) mentira do Executivo Estadual e Municipal cearenses

E eu, o que fiz!?
Li esta notícia: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10202888481470370&set=a.1773163766197.2167344.1152382173&type=1&theater


Uma advogada, amiga do estudante morto à bala, tentando sensibilizar parte do nosso setembrismo liberal

Ela queria contar àquele homem a história REAL
Ela queria, ao menos, uma palavra de consolo


Ela, talvez, quisesse saber se as crônicas que o poder daqui conta – são, minimamente, reais

Ela, o que fez?!
Assombrou - no sentido mesmo da palavra: “cobrir-se de sombra”
Tomou um susto

Dá calafrios a resposta fria do “Sr.” Ivo Gomes

Mas é esta a face da realidade:
A crônica da vida desfaz as “verdades” ditas apenas para defender mentiras

O que é, então, uma verdade de uma mentira?!

Lá do alto cume do poder se ouvirá a voz:
“A globo mentiu”
“O povo mente”
“Os estudantes mentem”
“A praça não é praça”

Não me assustaria se alguém perguntassem por aqui - a este alto cume:
“Quem é o Estado aqui no Ceará? ”

E de lá de cima trovejasse a voz:
“O Estado sou eu”. ...

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Nascemos e morremos pelos dias: sem que vejamos...



Nada mais lhe cabia

O ouvido dizia

A boca ouvia

Não havia muros suficientes

Tudo era amostragem: só a visão dizia conter realidades...

Garanto que o que vi não foi mera fábula!

Mas para que avalie se foi ou não
terás que me seguir com mais do que os seus olhos: ler é mais que visão!

Ela me contou tudo numa livraria
Ali pedia silêncio, mas ela urgia - seguia 

Eu acho incrível quando isto acontece:
Quando um estranho me diz de si, sem que ao menos lhe pergunte algo
E
Quando nos extrapolamos de tal forma que um mero sinal de segurança nos leva a expor o mais alto barulho dentro de nós..

Ela me disse rapidamente:

"Se todo dia fosse assim eu já me despediria de amanhecer…"

Achei que era um sinal de socorro (O Sinal de fumaça que vemos é Deus querendo nos humanizar): 

"É verdade, mas que bom que os dias nos provam que a vida não é só sinal de alerta - há mistério, surpresa… A graça de viver está no próximo dia, no outro sorriso, em tudo que o hoje nos aguarda vencer, você não acha? É como se o futuro fosse a medalha para os que vencem o presente e a pena para os que fugiram dele…"

Ela sorriu baixando a cabeça. Timidez?!, nem sempre, na maioria das vezes é peso mesmo o que faz as pessoas não nos olharem nos olhos…

"Qual o teu nome?!"

Eu me chamo: "Você triste"

"Como?"

"Sim, eu sou você quando estás triste! Não vês como nos aparentamos?!"

Você parou de ler aqui!?
Era fábula então, sonho!?

Aquele sinal de fumaça
estava do lado de dentro...

Só queria que soubesse que, naquela livraria, naquele encontro com "Você triste" eu pensei em como poderia me ajudar sempre que pudesse ver além do instante..

E quanto a instante queria aqui dizer algumas linhas mais
E, se tiver tido paciência com  o texto, poderá ter também algo para os teus sinais de fumaça


O que há na vida que nos impregna e nos larga tanto!?

Nascemos e morremos pelos dias: sem que vejamos...



Nascemos quando amamos

Morremos quando odiamos
Nascemos quando sonhamos
Morremos quando nos frustamos
Nascemos quando conquistamos
Morremos quando perdemos
Nascemos quando sorrimos
Morremos quando choramos
Nascemos quando chegamos
Morremos sempre quando PARTIMOS

Nascendo e Morrendo, mas em ambos: vivendo.



O que mais escuto é que se deve ser feliz e sempre

Para combater a ideia pequena de um SER FELIZ irrefletido

Queria trazer algumas linhas mais - ainda há alguém aí!? rsrsrs (Já disse, escrevo como cantam os passarinhos: para o nada e pelos os céus!)


"De Sócrates para cá, a visão de vida passou a receber a imagem de felicidade. em grego "felicidade" é "eudaimonia", literalmente o bom demônio ou anjo protetor. Seria o anjo da guarda que garante a vida feliz, isto é, livre de qualquer incômodo e repleto de satisfação."( Sêneca, p.92).


Olha aí!


Nunca tinha ouvido isto?!

Não talvez com esta abordagem, mas a ideia de um anjo protetor, de um deus que de tudo nos blinda: esta vontade e imagem é pacífica  - principalmente na sociedade ocidental…

Daí você se deprime, daí você se encaixota, daí você nem se nota - tem até raiva de si por não cantar sempre a mesma nota!


Morrer não cabe nesse conceito

O anjo da guarda não pode ter sossego
Nascer sempre e a toda hora
É então esse o maior desejo

Eudaimonias!

Querer um amor perfeito - eterno - pleno - infinito
Querer um sucesso, dinheiro, casa, carro, tudo mais que o vizinho 
Querer A beleza, A saúde - ser estátua, talvez um busto no Olimpo dessa odisséia sem fim

Querer 

Não só por querer
Querer
"Porque aos anjos darás ordem ao teu respeito!"
E esquecer que o mundo não é feito só de mim

Querer

E muito terá de nascer
Querer
Mas o morrer vez ou outra virá discorrer

Eu queria não usar poesias

Nem metáforas
Nem a palavra
Mas o que quero morreu quando esse texto nasceu…


"Viver é todos os dias partejar a vida" (Lya Luft, p.120)


Mas é também morrer de tanto viver


Como dito de forma aguda por Loius-Ferdinand Céline no seu belíssimo romance: "De Castelo em Castelo":


"Ah, vi muitas agonias…aqui…ali…por todo lado…

mas nem de longe tão belas, discretas….fiéis…
O que estraga a agonia dos homens é a POMPA…
O homem está sempre no palco…até o mais simples".(p.29).

A vida FELIZ intocada, só de nascimentos

É a velha eudamonia - os falsos ídolos que nos querem imprimir Uma POMPA sutil, mas que pesa, ao invés de um AMOR PELA VIDA que tudo releva...

Se você me acha pessimista, possivelmente, você é alguém que crê em um só lado da realidade - eu quero mais que a FELICIDADE eu quero a VERDADE...


"Não é pessimismo nem desespero, é uma simples evidência, mas uma evidência que, habitualmente, está velada, por pertencermos a uma coletividade que nos cega com seus sonhos, suas excitações, seus projetos, suas ilusões, suas lutas, suas acusas, suas religiões, suas ideologias, suas paixões. E depois, um dia, cai o véu e nos deixa sós..."(Kundera, p.21).


Seja bendito este dia

E que c(ai)a o véu (de nós)...

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Subi a montanha...

Eu estava contando as horas
como quem cata gotas de mar para levá-las para seu pequeno castelo...

Eu estava cantando para fora de casa
como se pudesse dividir-me em instâncias e lançar algo para o lado de fora de mim...

Eu estava seguindo um outro passo
como se ser sombra me fosse o mais perfeito esconderijo

Sim, era eu!

Olhando agora, qual monge, nem me percebo...

Como então me vi?!
Subi a montanha

Levei comigo apenas a minha alma: esquecida naqueles pátios dos dias - vagando, qual fantasma, cheia de arritmias 
Levei comigo apenas o meu sopro, fôlego, para ver se agora conseguiria

Subi a montanha
Não conseguia olhar para trás

Subi a montanha
Com medos
Subi

Subindo a montanha e meu silêncio não dizia nada
Lembrava de teorias, frases e nada aquietava

Subindo a montanha ouvi a beleza assanhada 

Cantavam ainda pássaros
As folhas ainda tremulavam e as árvores pareciam me falar

Parei na montanha para me ver - me encontrar 

A noite começava a cravejar de luz o céu 
E eu, que há anos não me via, agora via os meus olhos espelhando os céus

Dormi na montanha
Nem sei o que lá ocorreu
Dormi na montanha
Ouvindo a lira de Orfeu...

Já era outro dia
E a montanha não era a mesma - nem eu

Segundo dia
Subindo a montanha
Cheguei ao cume - não da montanha, mas do que chamam de
"EU"

Parei bem ali e afirmei: é bem aqui!
Sim, aqui onde subi a montanha em mim
Sim, aqui mesmo!

Quando souberem que meu "subir a montanha" durou só dois dias saberão que não fui até o seu cume
Eu rirei deles

É que eles já não me im(pressionam)!

Subi a montanha, para mim um fato
Sem malas, mapas ou calçados

Subi a montanha e jamais desci

Isso é o que acontece agora, sem que você veja, faço escaladas em mim....

terça-feira, 1 de outubro de 2013

OS TEÓLOGOS (Por: Jorge Luís Borges).


OS TEÓLOGOS

Arrasado o jardim, profanados os cálices e os altares, entraram a cavalo os hunos na
biblioteca monástica e rasgaram os livros incompreensíveis e os injuriaram e queimaram,
talvez temerosos de que as letras encobrissem blasfêmias contra seu deus, que era uma
cimitarra de ferro. Arderam palimpsestos e códices, mas no coração da fogueira, entre as
cinzas, permaneceu quase intato o livro duodécimo da Civitas Dei, que narra que Platão
ensinou em Atenas e, no fim dos séculos, todas as coisas recuperarão seu estado anterior, e
que ele, em Atenas, diante do mesmo auditório, de novo ensinará essa doutrina. O texto
que as chamas perdoaram desfrutou de veneração especial e os que o leram e releram
nessa remota província esqueceram que o autor só declarou tal doutrina para poder melhor
refutá-la. Um século depois, Aureliano, coadjutor de Aquiléia, soube que às margens do
Danúbio a novíssima seita dos monótonos (chamados também anulares) professava que a
história é um círculo e que nada é que não tenha sido e que não será. Nas montanhas, a
Roda e a Serpente tinham deslocado a Cruz. Todos temiam, mas todos se confortavam
com o boato de que João de Panonia, que se distinguira com um tratado sobre o sétimo
atributo de Deus, ia impugnar tão abominável heresia.

Aureliano deplorou essas notícias, sobretudo a última. Sabia que em matéria teológica não há novidade sem perigo; depois refletiu que a tese de um tempo circular era demasiado dissímil, demasiado assombrosa para que o perigo fosse grave. (As heresias que devemos temer são as que podem confundir-se com a ortodoxia.) Mais lhe doeu a intervenção – a intrusão – de João de Panonia. Havia dois anos, ele usurpara com seu palavroso De Septima Affectione Dei Sive de Aeternitate um assunto da especialidade de Aureliano; agora, como se o problema do tempo lhe pertencesse, ia retificar, talvez com argumentos de Procusto, com triagas mais temíveis que a Serpente, os anulares... Nessa noite, Aureliano folheou o antigo diálogo de Plutarco sobre a cessação dos oráculos; no parágrafo vinte e nove, leu uma burla contra os estóicos que defendem um infinito ciclo de mundos, com infinitos sóis, luas, Apolos, Dianas e Poseidons. O achado pareceu-lhe prognóstico favorável; resolveu adiantar-se a João de Panonia e refutar os heréticos da Roda.
Há quem procure o amor de uma mulher para esquecer-se dela, para não pensar mais nela; Aureliano, da mesma forma, queria superar João de Panonia para curar-se do rancor que ele lhe infundia, não para fazer-lhe mal. Temperado pelo mero trabalho, pela construção de silogismos e pela invenção de injúrias, pelos nego e os autem e os nequaquam, pôde esquecer esse rancor. Erigiu vastos e quase inextricáveis períodos, entrecortados por incisos, em que a negligência e o solecismo pareciam formas de desdém. Da cacofonia fez um instrumento. Previu que João ia fulminar os anulares com gravidade profética; para não coincidir com ele, optou pelo escárnio. Agostinho tinha escrito que Jesus é a via reta que nos salva do labirinto circular em que andam os ímpios; Aureliano, laboriosamente trivial, comparou-os a Ixion, ao fígado de Prometeu, a Sísifo, àquele rei de Tebas que viu dois sóis, à gaguice, a louros, a espelhos, a ecos, a mulas de carga e a silogismos bicornutos. (As fábulas gentílicas perduravam, rebaixadas a adornos.) Como todo possuidor de uma biblioteca, Aureliano se sabia culpado de não conhecê-la até o fim; essa controvérsia permitiu-lhe chegar a um acordo com muitos livros que pareciam censurar sua incúria. Assim pôde engastar uma passagem da obra De Principiis de Orígenes, na qual se nega que Judas Iscariotes voltará a vender o Senhor, e Paulo, a presenciar o martírio de Estêvão em Jerusalém, e outra dos Academica Priora de Cícero, em que este zomba dos que sonham que, enquanto ele conversa com Lúculo, outros Lúculos e outros Cíceros, em número infinito, dizem exatamente o mesmo, em infinitos mundos iguais. Além disso, esgrimiu contra os monótonos o texto de Plutarco e denunciou o escândalo de que a um idólatra valesse mais o lumen naturae que a eles a palavra de Deus. Nove dias lhe tomou esse trabalho; no décimo, foi-lhe enviada uma cópia da refutação de João de Panonia.
Era quase irrisoriamente breve. Aureliano olhou-a com desdém e depois com temor. A primeira parte glosava os versículos finais do nono capítulo da Epístola aos Hebreus, na qual se diz que Jesus não foi sacrificado muitas vezes desde o início do mundo, senão agora uma vez na consumação dos séculos. A segunda alegava o preceito bíblico sobre as vãs repetições dos gentios (Mateus 6, 7) e aquela passagem do sétimo livro de Plínio, que pondera não haver no vasto universo duas faces iguais. João de Panonia declarava que tampouco há duas almas e que o pecador mais vil é precioso como o sangue que por ele verteu Jesus Cristo. O ato de um único homem (afirmou) pesa mais que os nove céus concêntricos, e imaginar que possa perder-se e voltar é uma aparatosa frivolidade. O tempo não refaz o que perdemos; a eternidade guarda-o para a glória e também para o fogo. O tratado era límpido, universal; não parecia redigido por uma pessoa específica, mas por qualquer homem ou, talvez, por todos os homens.
Aureliano sentiu uma humilhação quase física. Pensou em destruir ou reformar seu próprio trabalho; em seguida, com rancorosa probidade, mandou-o para Roma sem modificar uma letra. Meses depois, quando se reuniu o Concílio de Pérgamo, o teólogo encarregado de impugnar os erros dos monótonos foi (previsivelmente) João de Panonia; sua douta e comedida refutação bastou para que Euforbo, heresiarca, fosse condenado à fogueira. "Isto ocorreu e voltará a ocorrer", disse Euforbo. "Não acendeis uma pira, acendeis um labirinto de fogo. Se aqui se unissem todas as fogueiras que eu tenho sido, não caberiam na terra e os anjos ficariam cegos. Isto eu falei muitas vezes." Depois gritou, porque as chamas o atingiram.

Caiu a Roda diante da Cruz, mas Aureliano e João prosseguiram sua batalha
secreta. Militavam os dois no mesmo exército, ansiavam pelo mesmo galardão, guerreavam contra o mesmo Inimigo, mas Aureliano não escreveu uma palavra que inconfessavelmente não pretendesse superar João. Seu duelo foi invisível; se os numerosos índices não me enganam, não figura uma única vez o nome do outro nos muitos volumes de Aureliano que a Patrologia de Migne entesoura. (Das obras de João, só permaneceram vinte palavras.) Os dois desaprovaram os anátemas do segundo Concílio de Constantinopla; os dois perseguiram os arianos, que negavam a geração eterna do Filho; os
dois testemunharam a ortodoxia da Topographia Christiana de Cosmas, que ensina ser a terra quadrangular, como o tabernáculo hebreu. Desgraçadamente, pelos quatro ângulos da terra difundiu-se outra tempestuosa heresia. Oriunda do Egito ou da Ásia (porque os testemunhos diferem e Bousset não quer admitir as razões de Harnack), infestou as províncias orientais e erigiu santuários na Macedônia, em Cartago e em Tréveris. Parecia estar em todas as partes; foi dito que nas dioceses da Bretanha tinham sido invertidos os crucifixos e que a imagem do Senhor, em Cesaréia, viu-se suplantada por um espelho. O espelho e o óbolo eram emblemas dos novos cismáticos.
A história os conhece por muitos nomes (especulares, abismais, cainitas), mas de todos o mais aceito é histriões, dado por Aureliano e que eles com atrevimento adotaram. Na Frigia foram chamados de simulacros, e também na Dardânia. João Damasceno chamou-os de formas; é justo advertir que a passagem tem sido repelida por Erfjord. Não há heresiólogo que, com espanto, não aluda a seus desmedidos costumes. Muitos histriões professaram o ascetismo; um que outro se mutilou, como Orígenes; outros moraram debaixo da terra, nas cloacas; outros arrancaram os olhos; outros (os nabucodonosores de Nitria) "pastavam como os bois e seu cabelo crescia como as penas da águia". Da mortificação e do rigor passavam, muitas vezes, ao crime; certas comunidades toleravam o roubo; outras, o homicídio; outras, a sodomia, o incesto e a bestialidade. Todas eram blasfemas; não só maldiziam o Deus cristão como as arcanas divindades de seu próprio panteão. Maquinaram livros sagrados, cujo desaparecimento os doutos deploram. Sir Thomas Browne, por volta de 1658, escreveu: "O tempo aniquilou os ambiciosos Evangelhos Histriônicos, não as Injúrias com que se fustigou sua Impiedade"; Erfjord sugeriu que essas "injúrias" (que um códice grego preserva) são os evangelhos perdidos. Isso é incompreensível, se ignoramos a cosmologia dos histriões.
Nos livros herméticos está escrito que o que existe embaixo é igual ao que existe em cima, e o que existe em cima, igual ao que existe embaixo; no Zohar, que o mundo inferior é reflexo do superior. Os histriões fundaram sua doutrina sobre uma perversão dessa idéia. Invocaram Mateus 6, 12 ("perdoa nossas dívidas, como nós perdoamos a nossos devedores") e 11, 12 ("o reino dos céus adquire-se à força") para demonstrar que a terra influi no céu, e I Coríntios 13,12 ("vemos agora como que por um espelho, em enigma") para demonstrar que tudo o que vemos é falso. Talvez contaminados pelos monótonos, imaginaram que todo homem é dois homens e que o verdadeiro é o outro, o que está no céu. Também imaginaram que nossos atos projetam um reflexo invertido, de maneira que, se velamos, o outro dorme, se fornicamos, o outro é casto, se roubamos, o outro é generoso. Mortos, nos uniremos a ele e seremos ele. (Algum eco dessas doutrinas perdurou em Bloy.) Outros histriões discorreram que o mundo acabaria quando se esgotasse o número de suas possibilidades; já que não pode haver repetições, o justo deve eliminar (cometer) os atos mais infames, para que estes não manchem o futuro e para acelerar a vinda do reino de Jesus. Esse artigo foi negado por outras seitas, que defenderam que a história do mundo deve cumprir-se em cada homem. Os demais, como Pitágoras, deverão transmigrar por muitos corpos antes de conseguir sua liberação; alguns, os protéicos, "no termo de uma só vida são leões, são dragões, são javalis, são água e são uma árvore". Demóstenes cita a purificação pela lama a que eram submetidos os iniciados nos mistérios órficos; os protéicos, analogicamente, procuraram a purificação pelo mal. Entenderam, como Carpócrates, que ninguém sairá da prisão até pagar o último óbolo
(Lucas 12, 59), e costumavam ludibriar os penitentes com este outro versículo: "Eu vim para que os homens tenham vida e para que a tenham em abundância" (João 10,10). Também diziam que não ser malvado é soberba satânica... Muitas e divergentes mitologias urdiram os histriões; uns pregaram o ascetismo, outros a licenciosidade, todos a confusão. Teopompo, histrião de Berenice, negou todas as fábulas; disse que cada homem é um órgão que projeta a divindade para sentir o mundo.
Os hereges da diocese de Aureliano eram dos que afirmavam que o tempo não tolera repetições, não dos que afincoavam que todo ato se reflete no céu. Essa circunstância era estranha; em um relatório às autoridades romanas, Aureliano mencionou-a. O prelado que receberia o relatório era confessor da imperatriz; ninguém ignorava que esse ministério exigente lhe vedava as íntimas delícias da teologia especulativa. Seu secretário – antigo colaborador de João de Panonia, agora inimizado com ele – gozava do renome de pontualíssimo inquisidor de heterodoxias; Aureliano acrescentou uma exposição da heresia histriônica, tal como esta se dava nos conventículos de Gênova e de Aquiléia. Redigiu alguns parágrafos; quando quis escrever a tese horrível de que não existem dois instantes iguais, sua pena se deteve. Não encontrou a fórmula necessária; as admoestações da nova doutrina ("Queres ver o que não viram os olhos humanos? Olha a lua. Queres ouvir o que os ouvidos não ouviram? Ouve o grito do pássaro. Queres tocar o que não tocaram as mãos? Toca a terra. Digo, verdadeiramente, que Deus está por criar o mundo") eram bastante afetadas e metafóricas para a transcrição. De repente, uma oração de vinte palavras apresentou-se a seu espírito. Escreveu-a, jubiloso; logo depois, inquietou-o a suspeita de que ela fosse de outro. No dia seguinte, lembrou-se de que a lera havia muitos anos no Adversus Annulares composto por João de Panonia. Verificou a citação; ali estava. A incerteza o atormentou. Alterar ou suprimir essas palavras era debilitar a expressão; deixá-las era plagiar um homem que ele abominava; indicar a fonte era denunciá-lo. Implorou o socorro divino. No princípio do segundo crepúsculo, seu anjo da guarda ditou-lhe uma solução intermédia. Aureliano conservou as palavras, mas lhes antepôs este aviso: "O que ladram agora os heresiarcas para confusão da fé, disse-o neste século um varão doutíssimo, com mais irreflexão que culpa". Depois, aconteceu o temido, o esperado, o inevitável. Aureliano teve de declarar quem era esse varão; João de Panonia foi acusado de professar opiniões heréticas.
Quatro meses depois, um ferreiro de Aventino, alucinado pelos enganos dos histriões, pôs sobre os ombros de seu filhinho uma grande bola de ferro, a fim de que seu outro voasse. O menino morreu; o horror produzido por esse crime impôs uma irrepreensível severidade aos juízes de João. Este não quis retratar-se; repetiu que negar sua proposição era incorrer na pestilencial heresia dos monótonos. Não entendeu (não quis entender) que falar dos monótonos era falar do que já estava esquecido. Com insistência um tanto senil, desperdiçou os períodos mais brilhantes de suas velhas polêmicas; os juízes nem sequer ouviam aquilo que outrora os arrebatara. Em lugar de tratar de purificar-se da mais leve mácula de histrionismo, esforçou-se em demonstrar que a proposição de que o acusavam era rigorosamente ortodoxa. Discutiu com os homens de cuja sentença dependia sua sorte e cometeu a máxima grosseria de fazê-lo com talento e com ironia. No dia 26 de outubro, depois de uma discussão que durou três dias e três noites, sentenciaram-no a morrer na fogueira.
Aureliano presenciou a execução, porque não o fazer seria confessar-se culpado. O lugar do suplício era uma colina, em cujo verde pico havia uma estaca, fincada profundamente no solo, e em torno dela muitas achas de lenha. Um ministro leu a sentença do tribunal. Sob o sol das doze, João de Panonia jazia com o rosto no pó, lançando uivos bestiais. Arranhava a terra, mas os verdugos o ergueram, o despiram e por fim o amarraram ao pelourinho. Puseram-lhe à cabeça uma coroa de palha untada de enxofre; ao lado, um exemplar do pestilento Adversus Annulares. Chovera na noite anterior e a lenha ardia mal. João de Panonia rezou em grego e depois em um idioma desconhecido. A fogueira ia levá-lo quando Aureliano se atreveu a erguer os olhos. As chamas ardentes se detiveram; Aureliano, pela primeira e última vez, viu o rosto do odiado. Lembrou-lhe o de alguém, mas não pôde precisar de quem. Depois, as chamas o perderam; depois, gritou e foi como se um incêndio gritasse.
Plutarco conta que Júlio César chorou a morte de Pompeu; Aureliano não chorou a de João, mas sentiu aquilo que sentiria um homem curado de uma enfermidade incurável que já fosse parte de sua vida. Em Aquiléia, em Éfeso, na Macedônia, deixou que sobre si passassem os anos. Procurou os difíceis limites do Império, os rudes lamaçais e os contemplativos desertos, para que a solidão o ajudasse a entender seu destino. Numa cela mauritana, na noite carregada de leões, repensou a complexa acusação contra João de Panonia e justificou, pela enésima vez, o veredicto. Custou-lhe mais justificar sua tortuosa denúncia. Em Rusaddir pregou o anacrônico sermão Luz das Luzes Acesa na Carne de Um Réprobo. Em Hibérnia, em uma das cabanas de um monastério cercado pela selva, surpreendeu-o, numa noite até a alvorada, o rumor da chuva. Lembrou-se de uma noite romana em que fora surpreendido, também, por esse minucioso rumor. Um raio, ao meio- dia, incendiou as árvores e Aureliano pôde morrer como morrera João.
O final da história só pode ser narrado com metáforas, já que se passa no reino dos céus, onde não há tempo. Talvez fosse oportuno dizer que Aureliano conversou com Deus e que Este se interessa tão pouco por diferenças religiosas que o tomou por João de Panonia. Isso, entretanto, insinuaria uma confusão da mente divina. Mais correto é dizer que no paraíso Aureliano soube que, para a insondável divindade, ele e João de Panonia (o ortodoxo e o herege, o odiado e o que odeia, o acusador e a vítima) formavam uma única pessoa."( BORGES, Jorge Luís, 2009, p. 20-25). 

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Palavras, onde estão seus pés mesmo!? (Ou: Da interpretação "ao pé da letra").

As palavras ficavam se escondendo

Alguns diziam que as receberam dos seus pés
"ao pé da letra" 
era como traduziam tudo

Mas a corrida era de tantos pés e por tantos lados - que eu ficava me  questionando:
Em quais pés tinham caído!?

Outros diziam que beberam de seu espírito
"o espírito da letra diz isto…."
Eu ficava tentando desvendar o mistério de tantos espíritos soprarem tantas lições diversas

A palavra é gaveta
A palavra é algema
A palavra é flor de mil aromas

E
Ao mesmo tempo
A palavra é nada!

Só vê nela gaveta quem admite sua parte em construí-la
Só a vê como algema quem compromete-se com ela seguir
Só percebe seus mil aromas quem tem a humildade de perceber os mil jardins plantados pelo Deus das infinitas coexistências

Gastam tanta tinta,
Mas a Palavra é uma dependente!

Ela insinua 
acena
de soslaio media

Esse caldo apressado que os hermenêutas bebem e nos querem oferecer
Esse cipoal de dogmas e validações: a pressa de silenciar a palavra

O Poder de Dizer…

Meu Deus!!!

Perderam o sintoma positivo do perder o sintoma do "achado"

A palavra não se descobre: se inventa
A palavra não se interpreta como os gregos, nem como os hebreus, nem como os… ah, não se interpreta com esquemas de compreensão de terceiros
A palavra se bebe - seja quem tem sede, ou quem a despreza

A Palavra não se domestica
A palavra não se diviniza
A palavra não abre portas

A palavra, num abre e fecha, ventila e aquece a alma 

A palavra é uma brincante
A palavra é uma vista
A palavra é uma cria: que chora, berra e sinaliza...


Não vês A palavra!
refletes...
.
..
...

Escrevo agora este texto depois de QUATRO DIAS incríveis e desafiantes com a palestra do Dr Rui Luis Rodrigues. (Doutor em História pela USP), cujo tema: INTERPRETAÇÃO BÍBLICA, aqui na Betesda Sede - FORTALEZA/CE.  

Ele tem twitter - recomendo!  

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Vai, pássaro em gaiola! Tenta...!




Vai, pássaro em gaiola!
Tentar insurgir um caminho novo!
Vai e tenta passar pelo menos entre as portas!
Vai! Vê o que te prende e morre de tentar romper
Vai!
Que as penas te sejam presas e já não mais auxílio – pesas nisto crer

Vai, mesmo sem saber, o sabor, de onde andas

Vai, pássaro inteiro! que perturba a mente com as fraturas que não existem,
Vai, pássaro que teme o estilhaço!
Vai! Despedaça teu viver!

Houve dias que pensava – dias que não voltarão jamais!
Houve dias que dormia – não era preguiça era medo de existir
Houve dias que pensou em lançar-se contra a gaiola e explodir com ela
Houve tantos dias – e o que você fez neles, pássaro intacto?!

Há um rastro de luta em tua gaiola?!
As feridas evitadas evitaram a luta explosiva do lado de dentro!?

Vê?! Nem tudo é mero passo – há descompasso quando não se sabe ver o viver!

Eu ainda vejo 
Urnas
Depositando esperanças
Rios
Despejando vidas – Gastando andanças

Vertigens
Força grave – gravidades

Lutas
Intensas

Fugas
Imensas

Queria dedilhar agora um som que fizesse a gaiola abrir
Mas o que trago?!
Outras gaiolas ao devir

É que a esperança da chave que abra as gaiolas que nos metemos e que vida nos trancafia é, por vezes, traiçoeira:
“A esperança é a última a morrer.” Diz-se. Mas não é verdade. A esperança não morre por si mesma. A esperança é morta. Não é um assassínio espectacular, não sai nos jornais. É um processo lento e silencioso que faz esmorecer os corações, envelhecer os olhos dos meninos e nos ensina a perder crença no futuro.”Mia Couto.

Queria que, sempre, aqui as palavras fossem sentidas, mais que percebidas
Que fossem moídas, mais que lidas
Fossem comidas – do caule à flor dos aromas!

Era a vertigem. Um atordoamento, um insuportável desejo de cair. Eu poderia dizer que a vertigem é a embriaguez causada pela nossa própria fraqueza. Temos consciência da nossa própria fraqueza mas não queremos resistir a ela e nos abandonar. Embriagamo-nos com nossa própria fraqueza, queremos ser mais fracos ainda, queremos desabar em plena rua, à vista de todos, queremos estar no chão, ainda mais baixo que o chão.” (Kundera, 2001, P.74).

Dá tontura só de ler este texto
Mas é esse o sentimento que estou a descrever!

Não traço aqui um dicionário léxico sobre esperança
Aqui faço menção de um  “rio léxico” que corre nos sentidos de quem sente VERTIGENS


Há janelas que podem ser CRIADAS, outras que não!
Há esperanças que podem morrer, outras que nascem falecidas!
Mas
a alma sempre pedirá a LUTA
Sinta o momento e perceba que não és SUPER, SUPRAHUMANO
A gaiola que te prendeu a alma pode não ter chave: se eu fosse você eu daria minha vida e morreria tentando...


Vertigens são gaiolas que queremos nos prender!